80 anos depois dos testes nucleares, as Ilhas Marshall ainda esperam por justiça

No dia 6 de outubro o jornal britânico Tamil Guardian publicou a notícia “Marshall Islands still waiting for justice 80 years after US nuclear tests, UN told”, a matéria destaca a violação contínua dos direitos humanos das comunidades afetadas por testes nucleares nas Ilhas Marshall. O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) afirmou, em 1º de outubro de 2026, durante a 63ª sessão do Conselho de Direitos Humanos, que os marshalleses continuam aguardando justiça pelos 67 testes nucleares realizados pelos Estados Unidos entre 1946 e 1958, período em que o território estava sob tutela da ONU. As detonações nucleares afetaram drasticamente os moradores da ilha, com consequências físicas, psicológicas, ambientais e culturais irreversíveis, incluindo taxas elevadas de câncer, contaminação ambiental e deslocamento de comunidades que ainda não puderam retornar aos seus atóis ancestrais. Nesse sentido, a vice-alta-comissária para os Direitos Humanos ao Conselho destacou que “Para o povo das Ilhas Marshall, essa história não pertence ao passado. Ela continua presente nos corpos e nas famílias, nas terras contaminadas e nas comunidades que foram deslocadas.”

Nesse contexto, torna-se pertinente destacar o conceito de “colonialismo nuclear”, que Robert Jacobs (2022) descreve como o processo pelo qual Estados nuclearmente armados selecionam regiões afastadas de seus próprios territórios para testar seu arsenal, “[…] deslocando e contaminando populações marginalizadas, que têm pouco acesso a mecanismos de reparação, informação ou compensação” (Jacobs, 2022, tradução própria). A partir dessa perspectiva, Myrrhia Gómez (2022) identifica cinco dimensões que permitem analisar os efeitos dos testes nucleares sobre as populações afetadas: trauma intergeracional; doenças e mortes; contaminação; sigilo e ocultação; e racismo ambiental. O caso das Ilhas Marshall evidencia, assim, como essas dimensões se articulam em um contexto marcado por relações coloniais e desigualdades de poder, no qual as populações das Ilhas Marshall foram selecionadas como local de experimentação em razão de sua condição racializada e subalterna e por sua localização nas periferias daquilo que era compreendido como civilização.
Essa dinâmica também revela uma concepção de natureza e de território que legitima a exploração de determinados espaços e populações em nome do desenvolvimento e do progresso. Nesse sentido, conforme exposto por Bartolomé Clavero e Carlos Mamani (2012), os Estados pautam-se em uma cultura exploratória do meio ambiente, centrada na degradação da terra e justificada pela busca do desenvolvimento. Os autores criticam, assim, a visão ocidental dominante que analisa a natureza apenas como uma fonte de recursos e/ou propriedades sob domínio humano e estatal, legitimando sua degradação e exploração. A partir dessa lógica, os testes nucleares representam uma expressão extrema da racionalidade militarista e armamentista, na qual territórios e populações são instrumentalizados em detrimento de sua integridade ambiental e de seus direitos. Essa perspectiva contrasta com os princípios da Declaração Universal dos Direitos da Mãe Terra, que reconhece o direito da natureza de existir e ter seus ciclos vitais respeitados, inclusive diante da contaminação por resíduos nucleares. A proteção desses direitos está diretamente relacionada aos direitos dos povos originários nas Ilhas Marshall.
O cenário apresentado demonstra, portanto, como pautar demandas, políticas e problemáticas que envolvam povos originários e suas reivindicações tem a consideração da terra e do território indígena como requisito indispensável. Pensar política internacional e relações internacionais indígenas exige, indissociavelmente, a integração entre o povo e o território, visto filosofias que fazem destes um corpo só. Nesse sentido faz-se perceptível como, no caso das Ilhas Marshall, a atuação da ONU, que tutelava o território enquanto o mesmo era nuclearmente testado pelo governo estadunidense, revela uma lógica ocidental que, mesmo em órgãos como este, fundado sobre as bases da autodeterminação dos povos, respeito à soberania, promoção da paz e defesa dos direitos humanos, mantém um modus operandi ocidental e colonial. Ao permitir a realização “justificada” de testes nucleares no território, afere-se uma separação entre a natureza e a cultura indígena, como se os danos irreversíveis às populações da região não tivessem direta correlação com sua identidade e cultura.

Terra e povo são valores interdependentes para a construção de cultura e identidade que, aqui, são sobrepostos por uma concepção que separa a partir do contato e dependência do natural o ser moderno e o não-moderno, o civilizado e o indígena. Fontes do conhecimento ocidental, como a filosofia hobbesiana, dotada de uma postura que coloca o próximo à natureza como selvagem, se revela como precedente de um ocidente que se considera “o mundo”, onde a divergência é o outro, a representação do atraso.
O caso apresentado faz luz a uma realidade de um protagonismo “fantasma” dos povos indígenas na política internacional contemporânea. As reparações demonstram-se insuficientes e incapazes de resgatar as perdas das comunidades, indivíduos e culturas da região. A violação dos direitos humanos sofrida pelas Ilhas Marshall se faz corroborada por acordos frustrados com os Estados Unidos e pela retirada do país do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Trata-se de um cenário que faz denúncia e demonstra a urgência de um efetivo repensar da política e das relações internacionais no relativo à participação indígena em grandes fóruns de discussão sobre uma modernidade que o originário não só viu nascer como integra. Não basta desconstruir, é necessária a reconstrução de toda a estrutura que parte da natureza como objeto geológico e não como um ser-terra constituído por povos, identidades e culturas diversas. Como aponta Cristina Rojas (2019) ao propor uma política internacional pautada por um “pluriverso”, é necessário desaprender narrativas totalizantes e dar espaço a um caminhar conjunto pela formação de um projeto ético-político que se fundamenta na diferença, a fim de trilhar realidades onde o protagonismo indígena não seja voz exclusiva da reivindicação de direitos que já foram violados mas de uma atuação decisiva em processos que possam e podem interferir seu modo de vida e existir na contemporaneidade.
Redação: Júlia Marcon, Diretora de Comunicação
Revisão: Fernando Fiala, Editor de Conteúdo e Diretor de Projetos
06/11/2026 BRT
O conteúdo deste artigo é de responsabilidade de seus autores e não reflete necessariamente o posicionamento institucional da Dhesarme.
Referências
CLAVERO, B., & MAMANI, C. (2012). Derechos de la Madre Tierra en medios no indígenas. América Latina en Movimiento, (479), 10–12.
GÓMEZ, M. (2022). Nuclear Nuevo México: Colonialism and the effects of the nuclear industrial complex on Nuevomexicanos. The University of Arizona Press.
JACOBS, R. (2022). Nuclear bodies: The global hibakusha. Yale University Press.
ROJAS, C. (2019). Contestando as lógicas coloniais do internacional: Rumo à uma política relacional do pluriverso. Revista Monções, 8(15), 519–543.
TAMIL GUARDIAN. (2026, October 6). Marshall Islands still waiting for justice 80 years after US nuclear tests, UN told. Tamil Guardian. https://tamilguardian.com/content/marshall-islands-still-waiting-justice-80-years-after-us-nuclear-tests-un-told




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