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Gastos Militares com Armas Nucleares em 2025 Registram Alta de 19%

  • há 2 dias
  • 5 min de leitura
Ilustração: ICAN
Ilustração: ICAN

O aumento exorbitante nos gastos militares globais aferido em 2025, atingindo a marca de 2.8 trilhões de dólares, evidencia a extrema importância do relatório lançado pela International Campaign to Abolish Nuclear Weapons (ICAN) “PREMEDITATED: NUCLEAR WEAPONS SPENDING IN 2025“, que permite observar de forma isolada o aumento do orçamento alocado para Armas Nucleares, que no ano passado atingiu 119 bilhões de dólares gastos. Assim, é atestado um cenário internacional preocupante, no qual os países desenvolvem cada vez mais seus arsenais nucleares em busca de uma falsa política de segurança repousada sobre a dissuasão nuclear como garantia da soberania dos Estados. 


Os esforços para a diminuição da produção e disseminação de armas nucleares  intensificaram-se na Guerra Fria, com a criação do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) em 1968, do qual mais de 190 países são parte. Um empenho que se expande com a adoção do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN) em 2017, que visa a proibição total de armas nucleares. Entretanto, os Estados nuclearmente armados permanecem fora dele, e sem previsão de adesão.


Diante disso, é nítido que apesar do persistente combate do desenvolvimento e investimento nessa indústria, os nove países produtores de armas nucleares caminham na direção contrária, aumentando o orçamento despendido para manutenção e fabricação de novos – e mais modernos – arsenais. Uma das principais justificativas para esses gastos é a dissuasão nuclear, teoria que afirma que a posse e modernização dos arsenais nucleares não resulta necessariamente em sua utilização, mas no impedimento de ataques em potencial de Estados adversários. Contudo, a dissuasão nuclear traz em si um paradoxo, ao mesmo tempo que procura impedir guerras através da lógica da Destruição Mútua Assegurada (MAD) — do inglês Mutually Assured Destruction — , condiciona o aumento recorrente de investimentos no setor, alimentando uma corrida armamentista que prejudica a assistência das reais necessidades da sociedade civil. Demonstrando o profundo contraste entre o investimento à indústria armamentista e às necessidades civis, o gasto destinado para armamentos nucleares nos últimos três anos tem a capacidade de financiar programas para erradicar a fome do mundo (ICAN, 2025).


O mesmo relatório revela ainda que os países produtores aumentaram em média US$16.8 bilhões (19%) a mais que no ano de 2024 (US$100 bilhões). Quando somados os últimos cinco anos, registra-se o gasto de 471 bilhões de dólares. Os Estados Unidos lideram essa ampliação em despesas nucleares, aumentando US$12.4 bilhões desde 2024 e gastando mais do que todos os outros Estados nuclearmente armados juntos, com $69.2 bilhões. Logo em seguida, posiciona-se a China com US$13.5 bilhões e, em terceiro lugar – ao contrário do esperado –, não se situa a Rússia, mas o Reino Unido, com US$12.6 bilhões empregados. Em seguida, figuram Rússia, com US$9.5B; França, Índia, Paquistão, Israel e Coréia do Norte. 


Gasto com Armas Nucleares por país em 2025. Fonte: ICAN
Gasto com Armas Nucleares por país em 2025. Fonte: ICAN

Ressaltam-se também as 25 companhias que trabalharam no desenvolvimento e manutenção desses sistemas, assinando contratos bilionários que obtiveram receitas de US$38 bilhões por atividades relacionadas à produção de armas nucleares, e possuem pelo menos US$401 bilhões em contratos em andamento. Tendo isso em vista, também se faz necessária a compreensão de que a produção e manutenção desses sistemas raramente se limitam a curtos períodos, possuindo um longo processo que parte de sua aprovação, pesquisa, design, construção e, por fim, implantação. Contratos de mais de dez anos são estabelecidos com essas empresas, tal qual o contrato em andamento da BAE Systems, para a construção de um submarino nuclear no Reino Unido que perdura até 2033, e o contrato do U.S Pantex, focado na manutenção e modernização das instalações nucleares, que corre até 2044. Nessa lógica, também há um grande alocamento de recursos por parte das companhias para atividades de lobby. No ano de 2025, registrou-se o gasto de US$138 milhões para influenciar decisões políticas que possibilitem a continuação de programas nucleares. Essa preocupante movimentação enfatiza o caráter econômico envolvido na fabricação, modernização e manutenção desses arsenais, evidenciando que, por trás da estratégia militar, existe um ciclo produtivo que garante lucro ao setor privado.


Nesse segmento, os números astronômicos que os gastos em armas nucleares atingiram em 2025 apontam uma discrepância significativa quando comparados aos investimentos feitos em saúde e educação. Segundo um estudo realizado pela Brown University Costs of War, o orçamento destinado a programas nucleares, além de nocivos, geram um percentual de empregabilidade muito menor do que as áreas de benefício civil citadas. Mesmo com essas evidências, a previsão de gastos para os próximos anos é ainda maior, com um aumento calculado e requerido pelos líderes dessas nações. O primeiro-ministro francês, Emmanuel Macron, por exemplo, anunciou um plano para gastos militares entre 2024-2030 de 449 bilhões de euros, com um adicional de 36 milhões para o aumento de sistemas nucleares, situação similar à do  parlamento do Reino Unido, que já aprovou o dispêndio de 128 bilhões de libras com um adicional de 6% ao ano do orçamento militar total. Vale destacar que essas estimativas são subestimadas, levando em conta o histórico de elaboração dos sistemas nucleares, que costumam captar ainda mais recursos. 


O gasto por segundo, dia, semana e ano dos Estados nuclearmente armados em 2025. Fonte: ICAN
O gasto por segundo, dia, semana e ano dos Estados nuclearmente armados em 2025. Fonte: ICAN

O dinheiro aplicado em armamento nuclear por segundo é de US$3.768, um valor que poderia ser destinado para reflorestamento, esforços pela transição energética global, investimentos em saneamento básico, segurança alimentar, infraestrutura, etc. Levando em conta o recurso desembolsado para armas nucleares somente pelos EUA, o orçamento anual das Nações Unidas poderia ser pago 19 vezes, confirmando como o capital gasto poderia fazer uma diferença profunda na promoção dos Direitos Humanos. Apesar disso, é presenciado um movimento contrário por parte das potências nucleares, e é nessa lógica que se faz indispensável a organização da sociedade civil na luta para frear esses gastos altíssimos e realocá-los para campos que efetivamente irão melhorar as condições de vida, não colocá-las em risco. Relatórios como o produzido pela ICAN denotam o imenso montante destinado para a militarização e, em especial, às armas nucleares, trazendo à tona o questionamento: quais têm sido as prioridades de investimentos dos governantes?


"Quanto é gasto com Armas Nucleares em comparação aos gastos com as Nações Unidas?" Fonte: ICAN
"Quanto é gasto com Armas Nucleares em comparação aos gastos com as Nações Unidas?" Fonte: ICAN

Portanto, o cenário atual é extremamente alarmante ao evidenciar como os gastos com armamentos de destruição em massa tornam-se, progressivamente, prioridade das políticas de Estado. Além disso, países que já são parte dos tratados têm manifestado inseguranças, — em vista da alta nos investimentos em armas nucleares e o interesse em desenvolver sistemas próprios — o que aponta para o momento sensível no qual essa agenda se localiza e a fragilidade da “segurança” garantida pela dissuasão nuclear.


Nesse sentido, o Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres (2025), expressa sua preocupação e alerta: “a segurança global continua deteriorando-se, colocando em dúvida a efetividade de aumentar as despesas militares para aumentar a segurança” (traduzido pelo autor). Destacando, assim, a complexidade do gradual aumento das despesas nucleares, e o ideal de uma segurança que, na realidade, é inventada. Enquanto isso, reais necessidades, carentes de  visibilidade e financiamento, continuam a se desenvolver às sombras das prioridades estatais. 


Redação: Valkiria Irineu

Revisão: Fernando Fiala

03/07/2026 BRT


O conteúdo deste artigo é de responsabilidade de seus autores e não reflete necessariamente o posicionamento institucional da Dhesarme.


Referências

INTERNATIONAL CAMPAIGN TO ABOLISH NUCLEAR WEAPONS (ICAN). Premeditated: 2025 global nuclear weapons spending. Genebra: ICAN, 2026. Disponível em: https://www.icanw.org/premeditated_2025_global_nuclear_weapons_spending. Acesso em: 3 jul. 2026.


INTERNATIONAL CAMPAIGN TO ABOLISH NUCLEAR WEAPONS (ICAN). Signature and ratification status. Genebra: ICAN, [2026]. Disponível em: https://www.icanw.org/signature_and_ratification_status_v1. Acesso em: 3 jul. 2026.


INTERNATIONAL CAMPAIGN TO ABOLISH NUCLEAR WEAPONS (ICAN). 2025 nuclear weapons spending reaches $119 billion. Genebra: ICAN, 9 jun. 2026. Disponível em: https://www.icanw.org/2025_nuclear_weapons_spending_reaches_119_billion. Acesso em: 3 jul. 2026.


RELAÇÕES EXTERIORES. Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN): o que é, objetivos e países participantes. [S. l.]: Relações Exteriores, 24 set. [s.d.]. Disponível em: https://relacoesexteriores.com.br/tratado-proibicao-armas-nucleares-24-set/. Acesso em: 3 jul. 2026.


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