Bombas nucleares são armas que liberam uma enorme quantidade de energia por meio de reações nucleares, produzindo uma explosão de grande poder destrutivo, intensa radiação, calor extremo e uma onda de choque capaz de devastar áreas inteiras. Ao liberar grandes quantidades de radiação, elas envenenam o ar, a terra, a água e nossos corpos, causando danos através de fronteiras nacionais e por meio de gerações. Elas são as armas mais destrutivas e desumanas já criadas e, enquanto existirem, existe sério risco de que sejam usadas novamente.
PROBLEMA
Durante a II Guerra Mundial, armas nucleares foram utilizadas pelos Estados Unidos em Hiroshima e Nagasaki (Japão) matando imediatamente mais de 200 mil pessoas.

Outras milhares morreram dias ou semanas após o ataque em decorrência de queimaduras, ferimentos causados pela explosão e síndrome aguda de radiação. Entre os efeitos a longo prazo sofridos pelos sobreviventes da bomba atômica, o mais mortal foi a leucemia. Um aumento nos casos de leucemia surgiu cerca de dois anos após os ataques e atingiu o pico cerca de quatro a seis anos mais tarde e, nesse contexto, as crianças representam a população que foi afetada de forma mais grave. Os sobreviventes, conhecidos como Hibakusha, sofreram intenso estigma social nos anos que se seguiram aos bombardeios, e muitos relataram dificuldades para se reinserir no mercado de trabalho. As mulheres foram particularmente afetadas, pois, além da discriminação no emprego, enfrentaram preconceitos no casamento, já que muitas pessoas evitavam se casar com sobreviventes da bomba atômica por medo de efeitos hereditários da radiação. Além disso, muitas sofreram abortos espontâneos ou deram à luz bebês que morreram ainda na infância ou nasceram com anomalias congênitas, incluindo a microcefalia, uma condição frequentemente associada à exposição à radiação durante a gestação (in utero).

Além disso, para aumentar o poder destrutivo de seus arsenais e demonstrar capacidade militar a seus adversários, os Estados com armas nucleares realizaram mais de 2.000 testes nucleares entre 1945 e 2017. Esses testes ocorreram em países e territórios como Argélia, Austrália, China, Índia, Cazaquistão, Kiribati, Mā’ohi Nui (Polinésia Francesa), Ilhas Marshall, Coreia do Norte, Paquistão, Rússia, Turcomenistão, Ucrânia, Estados Unidos e Uzbequistão. Em muitos casos, decisões pautadas por lógicas racistas e coloniais levaram governos a considerar povos indígenas e comunidades politicamente marginalizadas como descartáveis, tratando seus territórios como "remotos" e sem valor. Décadas depois, essas populações continuam sofrendo os impactos da radiação, com altas taxas de câncer, doenças crônicas, infertilidade e malformações congênitas, além da perda de vínculos culturais devido aos deslocamentos forçados e à impossibilidade de retornar às suas terras.
Atualmente (2026), os nove países nuclearmente armados (Estados Unidos, Rússia, China, França, Inglaterra, Paquistão, Índia, Coreia do Norte e Israel) acumulam um arsenal de cerca de 12 mil ogivas. Em 2025, esses países gastaram 118.8 bilhões de dólares com o desenvolvimento de tais armas.
CAMPANHA

A Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares (International Campaign to Abolish Nuclear Weapons, ICAN) é uma coalizão global de organizações da sociedade civil (incluindo a Dhesarme) dedicada à promoção da eliminação total das armas nucleares. Fundada em 2007 na Austrália, a ICAN desempenhou um papel central na mobilização internacional que levou à adoção do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN) em 2017. Por seu trabalho incansável na construção de um movimento global baseado nos princípios humanitários do desarmamento, a ICAN foi laureada com o Prêmio Nobel da Paz em 2017. Atuando em mais de 100 países, a campanha busca conscientizar sobre os riscos e impactos das armas nucleares, pressionar governos a aderirem ao TPAN e amplificar as vozes de sobreviventes e comunidades afetadas.
tratados
O Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN), adotado pelas Nações Unidas em 2017, é o primeiro acordo internacional juridicamente vinculante que proíbe de forma abrangente as armas nucleares, com o objetivo final de sua eliminação total. Ele proíbe os Estados Partes de desenvolver, testar, produzir, adquirir, possuir, armazenar, usar ou ameaçar usar armas nucleares, além de proibir assistência a qualquer ator envolvido nessas atividades. O tratado também estabelece obrigações positivas, como prestar assistência às vítimas do uso e teste de armas nucleares e remediar os danos ambientais causados. O TPAN representa uma conquista histórica para a diplomacia multilateral e a sociedade civil, sendo resultado de décadas de mobilização de ativistas, sobreviventes das bombas atômicas (Hibakusha), comunidades afetadas por testes nucleares e Estados comprometidos com o desarmamento. Apesar de ainda não contar com o apoio das potências nucleares, 100 países já adotaram medidas formais em apoio ao tratado. Além disso, o TPAN representa um marco ético e legal que fortalece a estigmatização dessas armas e oferece uma base concreta para pressionar por sua completa abolição, promovendo uma segurança baseada na cooperação e no respeito à vida humana.
Antes da adoção do TPAN, o principal instrumento jurídico internacional voltado às armas nucleares era o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), estabelecido em 1968. O TNP busca impedir a disseminação de armas nucleares ao proibir que novos Estados as desenvolvam, ao mesmo tempo em que promove o uso pacífico da energia nuclear e estabelece o compromisso com o desarmamento. Para isso, determina que os cinco Estados reconhecidos como possuidores de armas nucleares — Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China — não transfiram armas nucleares ou o controle sobre elas, enquanto os demais Estados se comprometem a não adquiri-las. Embora não proíba de forma geral a posse ou o uso de armas nucleares, o TNP constitui a base do regime internacional de não proliferação. Nesse contexto, o TPAN complementa esse arcabouço ao estabelecer uma proibição abrangente do desenvolvimento, posse, transferência, ameaça de uso e uso de armas nucleares por seus Estados Partes, fortalecendo a dimensão humanitária e o objetivo do desarmamento nuclear.
Além do TNP e do TPAN, outros instrumentos internacionais também contribuem para o fortalecimento do regime de desarmamento e não proliferação nuclear. Entre eles, destacam-se o Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT), que proíbe a realização de explosões de testes nucleares, e os tratados que estabelecem Zonas Livres de Armas Nucleares, como o Tratado de Tlatelolco, responsável por manter a América Latina e o Caribe livres de armas nucleares.
e o brasil?
Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP): O Brasil aderiu ao tratado em 1998 e defende seu cumprimento integral, incluindo os compromissos de não proliferação, uso pacífico da energia nuclear e desarmamento.
Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT): O Brasil assinou o tratado em 1996 e o ratificou em 1998. Embora ainda não tenha entrado em vigor, o país apoia sua implementação e a proibição de todos os testes nucleares.
Tratado de Tlatelolco: O Brasil é Estado Parte do tratado, que estabelece a América Latina e o Caribe como uma Zona Livre de Armas Nucleares, reforçando seu compromisso regional com a não proliferação e o desarmamento.
Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN): O Brasil assinou o tratado em setembro de 2017, mas ainda não o ratificou. Em 2018, o então presidente Michel Temer encaminhou o tratado ao Congresso Nacional com o objetivo de sua ratificação. No entanto, durante o governo de Jair Bolsonaro (2019–2022), não houve avanços nesse processo. Em 2023, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a considerar a ratificação do TPAN como uma prioridade. Apesar disso, uma audiência pública para debater a proposta ainda está pendente. Paralelamente, o Brasil tem defendido ativamente a universalização do TPAN. Em dezembro de 2025, a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara aprovou um parecer contrário à ratificação, mas a tramitação legislativa ainda não foi concluída. Paralelamente, o Brasil segue votando favoravelmente, na Assembleia Geral das Nações Unidas, às resoluções que incentivam a adesão universal ao tratado.


