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Hiroshima e Nagasaki: 81 anos de um legado que permanece

  • há 10 horas
  • 7 min de leitura
Parte da cidade de Hiroshima após o ataque nuclear ocorrido em 6 de agosto de 1945. Foto: EFE/ PEACE MEMORIAL MUSEUM
Parte da cidade de Hiroshima após o ataque nuclear ocorrido em 6 de agosto de 1945. Foto: EFE/ PEACE MEMORIAL MUSEUM

Em agosto de 2026, os ataques nucleares contra Hiroshima e Nagasaki completam 81 anos. 81 anos depois, ainda enfrentamos a possibilidade de que armas nucleares voltem a ser usadas. 81 anos depois, sobreviventes continuam convivendo com as consequências físicas e  psicológicas da radiação. 81 anos depois, os arsenais nucleares existentes são muito mais poderosos e destrutivos do que as bombas lançadas em 1945, e as consequências humanitárias de qualquer futura detonação seriam catastróficas. Nesta matéria, apresentamos o contexto histórico dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, o que aconteceu nos dias 6 e 9 de agosto de 1945 e os impactos humanitários que continuam sendo sentidos até hoje.


Contexto Histórico 

Em 1945, os Estados Unidos já estavam em guerra com o Japão havia três anos e meio, após o ataque surpresa japonês à base naval norte-americana de Pearl Harbor, no Havaí, no final de 1941. O ataque levou Washington a declarar guerra ao Japão e entrar na Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos iniciaram o desenvolvimento de seu programa nuclear durante a Segunda Guerra Mundial por meio do Projeto Manhattan (1942–1945), uma iniciativa secreta de pesquisa voltada à construção da primeira bomba atômica do mundo. Em julho de 1945, o país realizou o primeiro teste de uma arma nuclear no estado do Novo México, conhecido como Teste Trinity. Também em julho de 1945, o então presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, emitiu um ultimato exigindo a rendição incondicional do Japão; caso contrário, o país enfrentaria uma "destruição rápida e total" (Serrano, 2025).


Os Ataques

No dia 6 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram uma bomba de urânio-235, com o codinome "Little Boy" sobre a cidade de Hiroshima. Ela detonou a aproximadamente 600 metros acima do solo e teve uma potência equivalente a 15 mil toneladas de TNT. Toshiko Tanaka relembra  "Às 8h15, eu estava a caminho da escola quando alguém gritou: 'Bombardeiro inimigo!'. Olhei para o céu e vi um clarão enorme — era como um milhão de luzes. Tudo ficou branco" (Serrano, 2025).


Três dias depois (9 de agosto) os Estados Unidos lançaram uma segunda bomba atômica, desta vez sobre Nagasaki. A bomba, codinome "Fat Man", utilizava plutônio-239 e possuía um poder explosivo equivalente a 21 mil toneladas de TNT. Os locais foram escolhidos por autoridades militares e científicas norte-americanas por atenderem critérios como alta densidade populacional, topografia favorável à observação dos efeitos da radiação e importância militar ou estratégica das cidades para os japoneses (Oliveira, 2025). Estima-se que mais de 210 mil pessoas tenham morrido em consequência dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki até o final de 1945, incluindo tanto as vítimas que morreram imediatamente quanto aquelas que faleceram posteriormente em decorrência dos ferimentos e das doenças relacionadas à exposição à radiação (Serrano, 2025). 


Hipocentro da Nagasaki. Fonte: BBC News Brasil
Hipocentro da Nagasaki. Fonte: BBC News Brasil
Hipocentro de Hiroshima. Fonte: BBC News Brasil
Hipocentro de Hiroshima. Fonte: BBC News Brasil
















Impactos Humanitários 

Vítima da bomba atômica de Hiroshima. Foto: Photo12, UIG, Getty Images
Vítima da bomba atômica de Hiroshima. Foto: Photo12, UIG, Getty Images

Os bombardeios atômicos causaram uma imensa catástrofe humanitária. Seus efeitos imediatos incluíram uma poderosa onda de choque, calor extremo e incêndios generalizados, destruindo bairros inteiros em questão de segundos. As pessoas mais próximas do hipocentro das explosões foram instantaneamente vaporizadas e os sobreviventes dos bombardeios, conhecidos como hibakusha (palavra japonesa que significa literalmente "pessoas afetadas pela bomba"), sofreram os efeitos devastadores do calor intenso e da radiação. Muitos tiveram queimaduras graves que arrancaram a pele de seus corpos. Corpos carbonizados, pessoas com os órgãos expostos e vozes pedindo socorro se tornaram parte do cenário das cidades japonesas. Para além dos impactos diretos resultantes da explosão, a radiação se tornou um assassino silencioso.


Mesmo os sobreviventes que estavam a quilômetros do hipocentro receberam altas doses de radiação. Muitos foram impactados pela síndrome aguda da radiação (SAR),  que ocorre quando uma pessoa é exposta, em um curto período, a uma dose muito elevada de radiação ionizante penetrante. Seus sintomas incluem náuseas, vômitos, hemorragias e queda de cabelo. Muitas pessoas que inicialmente pareciam ilesas adoeceram gravemente dias ou semanas depois dos ataques. Alguns se recuperaram do estágio agudo da doença, mas morreram anos, ou até décadas, depois, em decorrência de cânceres e outras enfermidades causadas pelos efeitos tardios da radiação. Com o passar do tempo, alguns sobreviventes desenvolveram catarata e tumores malignos. Nos cinco anos seguintes aos bombardeios, os efeitos de longo prazo tornaram-se cada vez mais evidentes, com um aumento expressivo dos casos de leucemia entre as populações de Hiroshima e Nagasaki. Cerca de dez anos após os ataques, muitos sobreviventes desenvolveram câncer de tireoide, mama e pulmão, com taxas de incidência significativamente superiores às esperadas.


O impacto psicológico também foi profundo. Muitos hibakusha conviveram por toda a vida com traumas decorrentes dos horrores que presenciaram, com a culpa por sentirem que poderiam ter feito mais para ajudar familiares e amigos e com o medo constante de desenvolver doenças relacionadas à radiação. Além disso, muitos enfrentaram discriminação devido à sua aparência física e ao equívoco amplamente difundido de que carregavam doenças contagiosas. A exposição à radiação afetou não apenas os sobreviventes, mas também suas famílias, gerando preocupações sobre suas consequências de longo prazo, uma vez que alguns sobreviventes apresentaram aberrações cromossômicas e outros tipos de dano genético que podem ser transmitidos às gerações futuras.


Grupos Afetados Desproporcionalmente

As pessoas não são afetadas da mesma forma por armas nucleares. Quando falamos sobre esses armamentos, fatores como gênero, classe, raça e idade devem ser parte essencial do debate para maior entendimento sobre os impactos humanitários que resultam do desenvolvimento, teste e uso desses artefatos. Sendo assim, nesta seção, serão analisados os impactos desproporcionais dos ataques em Hiroshima e Nagasaki para as mulheres e crianças que os vivenciaram. 


As mulheres correm um risco significativamente maior de desenvolver câncer após exposição à radiação ionizante do que homens. Estudos conduzidos com sobreviventes dos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki demonstraram que o risco de desenvolver e morrer por câncer sólido decorrente da exposição à radiação ionizante foi quase duas vezes maior entre as mulheres do que entre os homens (Borrie, 2016). Destaca-se também o grande aumento no número de abortos espontâneos e natimortos entre mulheres grávidas que sobreviveram às explosões iniciais, que geraram temores sobre potenciais mutações genéticas transmitidas para as gerações futuras.


Koko Kondo, hibakusha de Hiroshima, no Parque Memorial da Paz. Foto: Aya Fujioka/The Guardian
Koko Kondo, hibakusha de Hiroshima, no Parque Memorial da Paz. Foto: Aya Fujioka/The Guardian

Além dos graves efeitos biológicos, as mulheres também enfrentam níveis desproporcionais de consequências sociais, culturais e psicológicas. Entre elas estão a estigmatização social que se traduz em situações como a dificuldade de reintegração no mercado de trabalho e barreiras à nupcialidade em razão de preconceitos relacionados aos efeitos do ataque nuclear. Ademais, reforça-se o fato de que muitas mulheres recorreram à prostituição como forma de sustento após as bombas atômicas e muitas foram submetidas à exames médicos degradantes conduzidos por profissionais da saúde do sexo masculino. Koko Tanimoto Kondo, hibakusha de Hiroshima, relata que, ao longo da vida, os frequentes exames médicos destinados a monitorar os efeitos da radiação lhe causavam profundo desconforto e ansiedade. Ela relembra que, quando era adolescente, precisava realizar os exames sem usar roupas e em uma sala repleta de médicos homens, fazendo com que ela se sentisse como um mero objeto de estudo e não como um ser humano (Hersey, 2002).


Menino descalço em Nagasaki carrega nas costas o corpo do irmão mais novo para ser cremado. Foto: The Catholic Sun 
Menino descalço em Nagasaki carrega nas costas o corpo do irmão mais novo para ser cremado. Foto: The Catholic Sun 

Quanto ao impacto de um ataque nuclear sobre crianças, elas possuem mais chance de: morrer em razão de queimaduras por possuírem a pele mais fina e sensível; morrer por consequência de machucados após a explosão por terem o corpo mais frágil e pequeno; morrer em razão da síndrome aguda da radiação; ficarem presas em escombros e não conseguirem se libertar, de sofrer com cânceres a longo prazo e de sofrer com traumas psicológicos. Estima-se que 38.000 crianças morreram em decorrência dos ataques em Hiroshima e Nagasaki, número esse que não inclui as crianças que morreram anos depois em razão de outras complicações, como cânceres, por exemplo. Como expõe Tim Wright (2024) em um relatório publicado pela International Campaign to Abolish Nuclear Weapons, cientistas descobriram que o risco de desenvolver câncer de tireoide entre crianças com menos de 10 anos no momento do ataque era maior do que entre adultos.


Ademais, muitos expostos in utero faleceram ou nasceram com anomalias congênitas, o que dificultou seu desenvolvimento intelectual e social. Por fim, estima-se que 6.500 crianças hibakusha perderam seus pais ou responsáveis durante ou logo após ataque e, de acordo autoridades municipais, "embora alguns órfãos da bomba atômica tenham conseguido reconstruir suas vidas, muitos sucumbiram à delinquência, às doenças e até ao suicídio." (Wright, 2024, p. 44, tradução própria) 



“As armas nucleares são as mais destrutivas, indiscriminadas e desumanas armas já produzidas” (Wright, 2026, p. 3, tradução própria) e mais de 200 mil pessoas morreram em Hiroshima e Nagasaki em razão dos ataques nucleares realizados pelos Estados Unidos em 1945. Intergeracionais e irreversíveis, as consequências são vivenciadas pelos hibakusha, seus filhos e seus netos até hoje, 81 anos após os bombardeios atômicos, expondo a crueldade inerente dessas armas e reforçando a urgente necessidade de aboli-las completamente.


Pintura de Kichisuke Yoshimura retrata cenas que seguiram após os ataques nucleares no Japão.
Pintura de Kichisuke Yoshimura retrata cenas que seguiram após os ataques nucleares no Japão.

Redação: Júlia Marcon

Revisão: Fernando Fiala

07/08/2026 BRT


O conteúdo deste artigo é de responsabilidade de seus autores e não reflete necessariamente o posicionamento institucional da Dhesarme.


BORRIE, John et al. Gender, Development and Nuclear Weapons. Geneva: UNIDIR, 2016. Disponível em: https://unidir.org/files/publication/pdfs/gender-development-and-nuclear-weapons-en-659.pdf Acesso em: 19 fev. 2026.


HERSEY, John. Hiroshima. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 


OLIVEIRA, Isabella. Por que Hiroshima e Nagasaki foram escolhidas como alvos das bombas atômicas?. CBN Mundo, 6 ago. 2025. Disponível em: https://cbn.globo.com/mundo/noticia/2025/08/06/por-que-hiroshima-e-nagasaki-foram-escolhidas-como-alvos-das-bombas-atomicas.ghtml. Acesso em 4 ago. 2026


SERRANO, Carlos. Hiroshima e Nagasaki: como foi o 'inferno' em que milhares morreram por causa das bombas atômicas. BBC News Brasil, 6 ago. 2025. Disponível em: 

https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-897d70df-056b-413c-ac44-cdacae33bc8c. Acesso em 4 ago. 2026


WRIGHT, Tim. The Impacts of Nuclear Weapons on Children. ICAN, ago. 2024. Disponível em: https://assets.nationbuilder.com/ican/pages/4076/attachments/original/1722507148/Impact-Nuclear-Weapons-Children-web.pdf?1722507148. Acesso em 30 jul. 2026.


WRIGHT, Tim. Não às armas nucleares.  ICAN, 2026. Disponível em: https://www.icanw.org/ican_launches_new_educational_materials_in_17_languages. Acesso em 4 ago. 2026.



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