Depois da Guerra: A História de Sadae Kasaoka
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Em memória aos ataques em Hiroshima e Nagasaki, que em agosto deste ano completam 81 anos, trazemos em mais uma edição do quadro Depois da Guerra: Histórias de Quem Viveu a sobrevivente do bombardeio de Hiroshima Sadae Kasaoka. Hoje, a mulher que em 6 de agosto de 1945 tinha apenas 12 anos, leva seu relato acompanhada de sua sobrinha, que realiza a tradução simultânea de sua história.
A história de Kasaoka tem um significado especial para Dhesarme, visto que foi durante a Hiroshima ICAN Academy on Nuclear Weapons and Global Security 2025, que tivemos a oportunidade única de conhecer sobreviventes do bombardeio atômico e ouvir, diretamente, testemunhos sobre as consequências humanitárias dos ataques e, dentre eles, a história de Sadae. Para saber mais sobre a edição de 2025 do Programa e a experiência da jovem ativista Júlia Marcon, Diretora de Comunicação da Dhesarme, clique aqui.
A manhã de 6 de agosto de 1945
Na manhã da explosão, Sadae havia permanecido em casa com sua avó porque, naquele dia, não precisaria participar do trabalho comunitário que costumava realizar. Seus pais haviam saído cedo para trabalhar e estavam muito próximos ao hipocentro da explosão. Ela conta que saiu de casa apenas por um instante para estender algumas roupas e, ao retornar, viu um intenso clarão alaranjado no céu, seguido por uma explosão devastadora que estilhaçou as janelas. Quase imediatamente, foi arremessada ao chão pela força da onda de choque e perdeu a consciência. Quando recobrou os sentidos, levou a mão à cabeça e percebeu a textura viscosa de seu sangue, além de fragmentos de vidro. Assustada, ela e sua avó correram em direção ao abrigo antiaéreo do bairro. Quando deixaram o abrigo, perceberam que praticamente todas as casas haviam desabado. Naquele momento, Sadae estava a aproximadamente 3,5 km do hipocentro.
A maior angústia de Kasaoka era não saber o que havia acontecido com seus pais. Seu irmão viajou da cidade de Kobe até Hiroshima para procurá-los e descobriu que o pai havia conseguido se abrigar na casa de parentes próximos e o levou para casa em um carrinho de duas rodas. Kasaoka descreve que ele estava irreconhecível: só conseguiu identificá-lo pela voz. Seu corpo estava inchado, extremamente quente e completamente carbonizado. Ela recordou que “parecia que alguém havia despejado uma lata de tinta preta sobre ele”. As queimaduras infeccionaram e inúmeras moscas pousavam sobre sua pele e depositavam ovos nela. Sadae fazia o possível para afastá-las, mas não conseguia. Quando tocava o pai, sua pele se desprendia, revelando a carne viva e avermelhada por baixo.
Depois da Guerra
Após dois dias de intenso sofrimento, ele faleceu. A menina e seus irmãos cremaram seu corpo na praia, assim como muitas outras famílias faziam com seus entes queridos. Sadae passou horas alimentando o fogo com pequenos galhos, incapaz de deixar as chamas se apagarem, porque sentia que, quando o fogo acabasse, seria a confirmação definitiva de que seu pai realmente havia partido.
Ela só recebeu notícias sobre sua mãe no dia 9 de agosto: ela havia sido encontrada, mas já estava morta. Seu corpo havia sido cremado, e Kasaoka pôde se despedir apenas ao ver pequenos fragmentos de seus ossos dentro de um pequeno saco de papel. A partir daquele momento, ela foi praticamente criada pelos irmãos mais velhos. Sadae relata que sua maior tristeza durante a infância era caminhar pela casa, um lugar tão familiar, e não poder mais chamar “Pai!” ou “Mãe!” pelos corredores.

Ao crescer, Sadae enfrentou forte discriminação. Muitos empregadores e possíveis pretendentes não queriam se envolver com sobreviventes da bomba atômica devido ao estigma social. A maioria dos homens não tinha interesse em se casar com mulheres hibakusha e que, quando finalmente se casou, foi com outro sobrevivente. Eles tiveram um filho e uma filha. Durante a gravidez, seu maior medo era que seus filhos não nascessem saudáveis, sendo o nascimento de ambos, perfeitamente sadios, uns dos dias mais felizes de sua vida.
No entanto, quando as crianças ainda eram pequenas, o marido de Kasaoka falece, provavelmente em decorrência dos efeitos de longo prazo da exposição à radiação. Mesmo diante de mais uma dolorosa perda, ela afirma que o amor pelos filhos e o forte senso de comunidade em seu bairro, onde todos eram sobreviventes e se apoiavam mutuamente, foram o que lhe deu forças para continuar. Um exemplo da força de redes de apoio entre sobreviventes de catástrofes como as de Hiroshima e Nagasaki.

Durante muitos anos, Kasaoka evitou compartilhar sua história. O trauma era profundo, e o medo da discriminação persistia. A sobrevivente, que por muitos anos não conseguia falar sobre a tragédia sem chorar, gradualmente mudou sua postura e enxergou a importância de sua voz através de outros hibakushas começarem a relatar suas experiências. Sadae conta que um momento chave para essa mudança foi quando aceitou um convite para falar a estudantes em uma escola. A recepção foi calorosa: muitas crianças lhe escreveram cartas e fizeram desenhos, o que a encorajou profundamente. Desde então, ela continua compartilhando seu testemunho e afirma: “Eu sobrevivi, então preciso contar minha história por aqueles que não tiveram a mesma sorte.”
Quando perguntada sobre sua percepção sobre os Estados Unidos durante sua juventude e como isso mudou ao longo do tempo, Sadae relata que, inicialmente, sentia uma intensa raiva do país, de seus líderes e dos estadunidenses em geral. Com o passar dos anos, porém, começou a compreender a complexidade do contexto e a reconhecer que a decisão de lançar a bomba foi tomada por algumas pessoas, e que muitos cidadãos do país jamais concordaram com ela. Kasaoka diz que, na primeira vez em que visitou os Estados Unidos, uma jovem se aproximou para conversar e pediu desculpas pelas ações de seu país, gesto que a emocionou profundamente. E foi ao longo de sua vida, a partir de encontros onde conheceu muitos ativistas norte-americanos dedicados à paz e ao desarmamento, que a forma de enxergar os Estados Unidos transformou-se.
Júlia Marcon, que teve a honra de ouvir pessoalmente o relato de resiliência e superação de Sadae, conta que:
"Conversar com Sadae Kasaoka foi, sem dúvida, a experiência mais emocionante e significativa da minha vida. Durante a Hiroshima ICAN Academy, aprendemos que uma única bomba transformou a vida de milhares de pessoas de maneiras profundamente distintas. Ainda assim, as narrativas sobre Hiroshima são frequentemente reduzidas a números e estatísticas, como se uma tragédia dessa magnitude pudesse ser resumida em dados. Ouvir a Sra. Kasaoka me fez compreender a importância vital de preservar e transmitir as histórias individuais e insubstituíveis daqueles que sobreviveram. Eu olhei nos olhos de uma sobrevivente e ouvi, em sua própria voz, o sofrimento humano e irreparável que essas armas provocam."
A história de Sadae lembra por que o trabalho desempenhado na mobilização pela construção de sociedades pacíficas e pelo desarmamento importa. Ademais, comprova que as armas nucleares violam princípios centrais do Direito Internacional Humanitário e nos convida a refletir sobre a importância do Desarmamento Humanitário na construção de uma paz duradoura e positiva. Ao dar voz a essa trajetória, o projeto Depois da Guerra: Histórias de Quem Viveu busca lembrar que por trás das estatísticas existem , famílias, sonhos e futuros silenciados.
Por Sadae, por todos os hibakushas e por todos aqueles que não sobreviveram, dar voz ao impacto humanitário intergeracional das armas nucleares e lutar por sua abolição completa é um dever da sociedade civil, dos Estados e das nações, para que as tragédias de Hiroshima e Nagasaki jamais se repitam.
Redação: Júlia Marcon
Revisão: Fernando Fiala
03/08/2026 BRT
O conteúdo deste artigo é de responsabilidade de seus autores e não reflete necessariamente o posicionamento institucional da Dhesarme.




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