Membros da DHESARME participam do programa Hiroshima ICAN Academy 2026
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Entre os dias 16 de junho e 2 de julho, os membros da Dhesarme Fernando Fiala, Júlia Marcon e Maria Eduarda de Oliveira participaram das sessões online da Hiroshima ICAN Academy on Nuclear Weapons and Global Security 2026. O programa é organizado anualmente pela International Campaign to Abolish Nuclear Weapons (ICAN), pela Prefeitura de Hiroshima e pela organização japonesa Hiroshima Organization for Global Peace (HOPe). Com o objetivo de formar líderes globais capazes de fazer contribuições concretas para um mundo mais pacífico e seguro, o tema selecionado para o programa neste ano é “Construindo pontes para promover o desarmamento nuclear”.

No primeiro webinar, foram abordados os impactos humanitários das armas nucleares, contando com a presença de dois sobreviventes afetados por esse armamento. Kazuhiko Futagawa é um hibakusha in utero, ou seja, estava no útero da mãe quando a bomba atômica foi lançada sobre Hiroshima e nasceu oito meses após o bombardeio. Durante o evento, Futagawa compartilhou mais sobre a história de sua família e impasses vivenciados por hibakushas in utero, destacando as experiências daqueles que nasceram com microcefalia e enfrentaram estigmatização social e falta de apoio médico. Mary Dickson é uma escritora, ativista pelo desarmamento nuclear e sobrevivente dos testes nucleares realizados em Nevada (EUA), pelos Estados Unidos. Mary destacou o sentimento de traição que surgiu entre os membros de sua comunidade ao perceberem que as complicações de saúde que estavam vivenciando, como cânceres e infertilidade, eram decorrentes dos testes realizados por seu próprio governo: “Nós nos preocupamos com as bombas nucleares do russos, mas no fim foram as bombas do nosso próprio país que nos atacaram”

No segundo webinar, os participantes puderam aprender mais sobre os impactos sociais, ambientais e econômicos das armas nucleares a partir da fala de Robert Jacobs, historiador e escritor que pesquisa sobre o colonialismo nuclear e os impactos dos testes nucleares. Jacobs reforçou em sua apresentação as sérias consequências da radiação residual proveniente das partículas radioativas, que permanecem no ambiente após explosões nucleares e podem contaminar o solo, a água, os alimentos e o corpo humano. O pesquisador destacou que as comunidades prejudicadas por testes nucleares enfrentam efeitos que vão muito além da exposição inicial e afetam, inclusive, o modo de vida tradicional de diversas populações indígenas, tendo como resultado deslocamentos forçados, incerteza constante sobre a própria saúde e a de familiares, e ruptura cultural por perda de modos de vida tradicionais.
O terceiro webinar, ministrado pela Dra. Laura Considine, teve como foco o conceito de dissuasão nuclear. Nele foram discutidos os diferentes tipos de dissuasão (mínima, limitada e máxima), as doutrinas nucleares adotadas por países como China, Reino Unido, França, Estados Unidos e Rússia, e como fatores como o ambiente de segurança, a política doméstica e as normas internacionais influenciam essas estratégias. Também foram apresentados os dilemas da dissuasão, como a corrida armamentista, a necessidade de capacidade de segundo ataque (second-strike capability), os riscos de acidentes, erros de cálculo e escaladas involuntárias, especialmente em um cenário multipolar com mais Estados possuidores de armas nucleares. Por fim, a palestra destacou a importância das iniciativas de redução de riscos nucleares, que buscam diminuir as chances de uso intencional, acidental ou não autorizado dessas armas.

No webinar 4, os participantes tiveram a oportunidade de ouvir Melissa Parke e Seth Shelden, da ICAN, que discutiram os impactos humanitários das armas nucleares e o papel da sociedade civil na promoção do desarmamento. Melissa destacou os 80 anos dos testes nucleares nas Ilhas Marshall e relembrou que outras comunidades, como povos indígenas afetados pelos testes em Nevada e sobreviventes coreanos de Hiroshima e Nagasaki, tiveram suas experiências historicamente invisibilizadas. Ela enfatizou a dimensão do colonialismo nuclear e destacou a importância do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN) por reconhecer os impactos específicos sobre mulheres, meninas e povos originários. Seth ressaltou o papel da sociedade civil em dar visibilidade às vozes de comunidades historicamente marginalizadas e em transformar a narrativa sobre as armas nucleares. A etapa online do programa foi finalizada no quinto webinar, quando os participantes puderam ouvir Jason Robinson, Representante Permanente Adjunto da Missão Permanente da Irlanda junto às Nações Unidas, em Genebra, para a Conferência do Desarmamento.
Fernando Fiala, Editor de Conteúdo da Dhesarme, destaca que a experiência foi “única ao unir o aprofundamento do conhecimento sobre o funcionamento das armas nucleares e seu caráter geopolítico à abordagem dos impactos devastadores e irreversíveis que esses armamentos causam às populações civis, ao meio ambiente e à preservação dos Direitos Humanos, da dignidade humana e da própria Terra. Ter tido a honra de ouvir diretamente especialistas, hibakushas, diplomatas e outras figuras trouxe ao curso a riqueza de conhecer de perto a história e o trabalho de pessoas que lutam diariamente contra as armas nucleares”. Ao ser questionada sobre os destaques do programa, a membro da Dhesarme Maria Eduarda de Oliveira expôs: “O que mais me impactou foi entender ainda mais que a destruição não acontece apenas no momento da explosão da arma nuclear. As consequências continuam por muitos anos, afetando a saúde, a qualidade de vida e o futuro de milhares de pessoas, especialmente das crianças e das próximas gerações”.
Júlia Marcon, Diretora de Comunicação da Dhesarme, que também participou do programa no último ano, destacou que o aspecto mais marcante de ambas as experiências foi a oportunidade de ouvir diretamente os hibakusha e conhecer suas histórias: “Somos a última geração a ter essa chance única de conversar com os sobreviventes dos ataques em Hiroshima e Nagasaki. Nossa missão é preservar e compartilhar essas histórias, mantendo vivo esse legado. Tenho muita gratidão a esse programa por tudo o que vivi e aprendi, e ver outros jovens tendo a oportunidade de ouvir profissionais, sobreviventes e ativistas foi incrível. Iniciativas como essa são essenciais para a construção de um futuro mais pacífico.”
Ao participar ativamente de programas como esse, a Dhesarme reforça seu compromisso com a promoção do desarmamento humanitário e da educação para a paz, e parabeniza as organizações responsáveis pela realização do programa por fortalecerem o diálogo, a memória e o engajamento de jovens lideranças na construção de um mundo livre de armas nucleares.
25/07/2026 BRT




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