Dia Internacional da Mulher pela Paz e pelo Desarmamento: a resistência feminina na construção da paz
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Celebrado em 24 de maio, o Dia Internacional da Mulher pela Paz e pelo Desarmamento surgiu no início da década de 1980 em um contexto marcado pelas tensões da Guerra Fria e pelo crescimento da corrida armamentista. A data foi impulsionada por movimentos feministas e pacifistas, especialmente na Europa, onde milhares de mulheres passaram a ocupar as ruas em protesto contra a militarização e a ameaça representada pelas armas nucleares.
Naquele período, o cenário internacional era caracterizado pela disputa política e militar entre Estados Unidos e União Soviética, acompanhada pelo aumento da produção e armazenamento de armamentos nucleares. Diante da possibilidade concreta de uma guerra nuclear, mulheres de diferentes países organizaram mobilizações, marchas e campanhas em defesa da paz, denunciando os impactos humanitários da violência armada e reivindicando alternativas baseadas na proteção da vida.
Ao longo das décadas, o Dia Internacional da Mulher pela Paz e pelo Desarmamento consolidou-se como um momento de reconhecimento da atuação histórica das mulheres na promoção da paz e na defesa do Desarmamento Humanitário. A data também reforça a importância da participação feminina nos debates e processos de tomada de decisão relacionados à Segurança Internacional, especialmente em um cenário global marcado por conflitos armados, crises humanitárias e diferentes formas de violência.
Contudo, mesmo protagonizando importantes movimentos pela paz, as mulheres também estão entre os grupos mais afetados pelos conflitos armados e pela violência armada. Guerras e crises humanitárias frequentemente intensificam desigualdades já existentes, ampliando situações de deslocamento forçado, insegurança alimentar, violência sexual e dificuldades de acesso a serviços básicos. Mulheres e meninas enfrentam impactos específicos em contextos de conflito, especialmente pela persistência de estruturas de desigualdade de gênero que tornam essas populações mais vulneráveis à violência e à exclusão.
"Conflitos e crises afetam mulheres e meninas de maneiras que vão muito além da violência sexual. [...] Mulheres e meninas perdem meios de subsistência e acesso à terra, além de assumirem novas responsabilidades de cuidado, muitas vezes enquanto lutam para conseguir alimento e água. Mulheres e meninas deslocadas enfrentam barreiras que vão desde trajetos inseguros até os banheiros dos campos de refugiados até procedimentos de asilo injustos, que não reconhecem a perseguição baseada em gênero." (Barr, 2025)
Nesse contexto, em 31 de outubro de 2000 o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) adotou a Resolução 1325, mundialmente conhecida como a Agenda de Mulheres, Paz e Segurança. O documento reconhece a relevância da atuação das mulheres na prevenção e solução de conflitos, negociações de paz, operações de manutenção e consolidação da paz, ações humanitárias e nos processos de reconstrução pós-conflito. Além disso, destaca a necessidade de garantir a participação plena e igualitária das mulheres em todas as iniciativas voltadas à promoção da paz e da segurança internacional. A resolução também solicita que os Estados e os organismos das Nações Unidas ampliem a participação feminina e incorporem a perspectiva de gênero em suas políticas e ações relacionadas à paz e segurança. Outro ponto central é o apelo para que as partes envolvidas em conflitos armados adotem medidas específicas de proteção para mulheres e meninas diante da violência de gênero, especialmente contra o estupro e outras formas de violência sexual.
Embora a resolução represente um marco, ainda existem desafios significativos para sua implementação. De acordo com o relatório Mulheres, Paz e Segurança de 2025, apresentado pelo Secretário Geral da ONU, António Guterres, cerca de 676 milhões de mulheres viviam a menos de 50 km de zonas de conflito, o número mais alto desde 1990. O informe aponta também que nos últimos dois anos houve um aumento expressivo no número de vítimas civis entre mulheres e crianças, chegando a quadruplicar, enquanto os casos de violência sexual cresceram 87%. Apesar dos impactos desproporcionais dos conflitos armados sobre mulheres e meninas, a participação feminina em processos formais de negociação e Construção de Paz ainda permanece limitada.
Historicamente, decisões relacionadas à segurança internacional, resolução de conflitos e acordos de paz foram conduzidas majoritariamente por homens. Segundo o mesmo relatório, em 2024, a grande maioria das negociações de paz ocorreu sem participação feminina, em média, as mulheres representaram apenas 7% dos negociadores e 14% dos mediadores envolvidos nesses processos.
A baixa participação feminina nos processos de paz reflete uma concepção, infelizmente predominante, de Segurança Internacional construída historicamente a partir de perspectivas masculinistas que tendem a priorizar respostas militares em detrimento de investimentos em bem-estar social, diplomacia e prevenção de conflitos. Essa lógica se expressa de forma concreta nos orçamentos, em 2025, os gastos militares globais atingiram US$2,8 trilhões, de acordo com os dados do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). O crescimento ocorre em paralelo a déficits persistentes em saúde, educação e proteção social, áreas que afetam diretamente a vida de mulheres e populações em situação de vulnerabilidade.
Nesse sentido, a perspectiva feminista propõe uma reorientação: de uma segurança centrada no Estado e na força militar para uma segurança centrada nas pessoas. Essa abordagem, de segurança humana, reconhece que ameaças como pobreza, violência de gênero, mudanças climáticas e falta de acesso a serviços básicos são tão urgentes quanto os conflitos armados e que qualquer agenda de paz que ignore tais dimensões será incompleta.
O 24 de maio recorda que, enquanto os gastos militares globais atingem recordes históricos, milhões de mulheres seguem vivendo em zonas de conflito, sem acesso a serviços básicos, sem representação nas mesas onde o futuro é negociado e sem proteção adequada contra as violências que as guerras produzem. Assim, discutir paz e desarmamento também significa refletir sobre desigualdades, participação política e compromisso coletivo com a proteção das populações civis e com a construção de uma cultura de paz.
“Quando as mulheres avançam, e quando o desarmamento avança, o mundo avança. Infelizmente, o mesmo também acontece no sentido contrário: retrocessos nessas áreas impõem custos para todos.” (Dhanapala apud Heyzer, 2003).
É nesse sentido que a Dhesarme acredita na construção de sociedades pacíficas pautadas, de forma indissociável, pela equidade de gênero e pela diversidade, valores estatutários e reafirmados em todas as atividades e articulações da organização. O Desarmamento Humanitário é, como integrante da formação de Culturas de Paz, portanto, instrumento fundamental de garantização dos Direitos Humanos e, também, de combate às injustiças históricas aprofundadas por conflitos armados e pela lógica militarizada masculinista.
Redação: Larissa Parcianelo
Revisão: Fernando Fiala
Referências
BARR, Heather. What Escalating Conflict Means for Women and Girls. Humans Right Watch, nov. 2025. Disponível em: https://www.hrw.org/news/2025/11/19/what-escalating-conflict-means-for-women-and-girls. Acesso em: 16 mai. 2026.
HEYZER, Noeleen. Gender, peace and disarmament. Disarmament Forum. Vol. 4. 2003.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Conselho de Segurança. Resolução 1325 (2000). Mulheres, Paz e Segurança. Nova York: ONU, 31 out. 2000. Disponível em: https://www.un.org/womenwatch/osagi/wps/. Acesso em: 16 mai. 2026.
Stockholm International Peace Research Institute. Trends in World Military Expenditure, 2025. Estolcomo: SIPRI, 2026. Disponível em: https://www.sipri.org/sites/default/files/2026-04/2604_milex_2025.pdf. Acesso em: 16 mai. 2026.
WILPF. International Women’s Day for Peace and Disarmament. Disponível em: https://www.wilpf.org/calendar/international-womens-day-for-peace-and-disarmament-2/. Acesso em: 16 mai. 2026.




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