Vozes Jovens pelo Desarmamento: A Experiência da ativista Maria Magalhães na 22ª Reunião dos Estados Partes do Tratado de Erradicação de Minas Terrestres 2025
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Entre os dias 1 e 5 de dezembro, Maria Clara de Magalhães, membro da Dhesarme, participou do “22º Encontro de Estados Partes do Tratado de Erradicação de Minas Terrestres”, em Genebra.
Nessa entrevista a jovem ativista compartilhou conosco o vivido em 5 dias no Palácio das Nações, destacando suas realizações e sublinhando os desafios de eventos como esse, assim como os impactos em sua formação como jovem ativista:
“Um momento muito emocionante foi perceber até onde o nosso trabalho, enquanto atores da sociedade civil, pode chegar. Dava para ver a nossa importância naquele espaço, e mostrou que podemos sim, ser agentes de mudança.”
Nesses dias, Maria teve uma agenda repleta de reuniões de mentoria, treinamentos de advocacy, abordagem de delegações com várias palestras e encontros com membros de outras organizações que contribuíram para sua formação. Além da oportunidade de conhecer outros jovens ativistas, que, em diferentes áreas de atuação, servem como inspiração na continuidade de sua trajetória de ativismo pelo Desarmamento Humanitário, especialmente de Minas Terrestres.
“Foi muito além do que eu imaginava. Estar nas Nações Unidas já é, por si só, algo muito emocionante - foi a realização de um sonho -, mas tudo o que vivemos ao longo da semana foi ainda mais especial, e enriquecedor para a minha formação como ativista”
Maria ressaltou também que a Reunião foi uma experiência desafiadora. Considerando o cenário atual, ver países se retirando do Tratado ou solicitando sua suspensão de forma ilegal enquanto eram apresentados a atualização de dados alarmantes, os quais demostram que as vitimas de Minas Terrestres são, em 90% dos casos, civis e crianças, evidenciou para a mesma as contradições de discursos que, ao gerar efeitos em cadeia, fazem por desmantelar um processo construído com tanto esforço.
“Embora afirmem se preocupar com a proteção de civis, muitas vezes apenas a simulam. Alguns desses países chegam, inclusive, a declarar que não pretendem utilizar minas terrestres em seus conflitos, o que torna ainda mais irônica sua retirada.”
Quando questionada sobre como é ser uma jovem ativista pelo desarmamento das Minas Terrestres atualmente, Maria destaca que, apesar de tantos desafios, avanços importantes vêm acontecendo.
A participação da sociedade civil nesses espaços demontra avanços significativos, porém, o contexto atual, permeado por cortes de financiamento, impacta diretamente as coalizões e suas indispensáveis ações, como a desminagem e a educação sobre riscos, dificultando um marco tão essencial para a proteção de civis em todo o mundo. Uma equação que tem como único resultado possível o aumento de vítimas, a recorrência ao deslocamento forçado e o enfraquecimento das tentativas de manutenção da segurança de crianças, fortemente afetadas pela indiscriminalidade de tal armamento.
Na contramão de qualquer pessimismo, novas adesões ao Tratado – como as do Reino de Tonga e das Ilhas Marshall –, movimentos positivos de países como a Micronésia e o Líbano mostram que o Desarmamento Humanitário segue sendo uma agenda relevante e urgente.
Maria finaliza com um chamado à ação:
“Minha mensagem para outros jovens e ativistas é que o nosso papel nunca foi tão necessário. Em 2025, ano em que o mundo esperava estar livre de minas terrestres antipessoal, ainda estamos longe dessa realidade. Seguimos enfrentando desafios significativos para conter seu uso, garantir o cumprimento das obrigações do Tratado e, sobretudo, proteger as pessoas dos seus impactos. Diante de um cenário em que cerca de 90% das vítimas são civis e metade são crianças, não há tempo nem espaço para desmobilização. Pelo contrário, esse é um chamado urgente para fortalecer o compromisso e a ação coletiva. Cada voz importa, cada iniciativa conta, e a atuação dos jovens tem um potencial transformador enorme. É fundamental que jovens ao redor do mundo se engajem, pressionem e incentivem seus países - especialmente aqueles que ainda não são signatários - a aderirem ao Tratado. Da mesma forma, é essencial mobilizar resistência frente a retrocessos, como a retirada de Estados já comprometidos”

English below
Young Voices for Disarmament: The Experience of Activist Maria Magalhães at the 22nd Meeting of States Parties to the Mine Ban Treaty, 2025
Between December 1 and 5, Maria Clara de Magalhães, a member of Dhesarme, participated in the “22nd Meeting of States Parties to the Treaty on the Eradication of Landmines,” in Geneva.
In this interview, the young activist shared with us her experience over five days at the Palais des Nations, highlighting her achievements and underscoring the challenges of events like this, as well as the impacts on her development as a young activist:
“A very emotional moment was realizing how far our work, as civil society actors, can go. You could really see our importance in that space, and it showed that we can indeed be agents of change.”
During those days, Maria had a schedule full of mentorship meetings, advocacy trainings, engagement with delegations, as well as several lectures and meetings with members of other organizations that contributed to her development. She also had the opportunity to meet other young activists who, in different areas of work, serve as inspiration in continuing her trajectory of activism for Humanitarian Disarmament, especially regarding landmines.
“It was far beyond what I had imagined. Being at the United Nations is already, in itself, something very emotional—it was the fulfillment of a dream—but everything we experienced throughout the week was even more special and enriching for my development as an activist.”
Maria also emphasized that the Meeting was a challenging experience. Considering the current context, seeing countries withdrawing from the Treaty or requesting its suspension in an unlawful manner, while alarming data updates were being presented—showing that, in 90% of cases, landmine victims are civilians and children—highlighted, for her, the contradictions in discourses that, by generating chain effects, end up dismantling a process built with so much effort.
“Although they claim to care about the protection of civilians, many times they merely simulate it. Some of these countries even declare that they do not intend to use landmines in their conflicts, which makes their withdrawal even more ironic.”
When asked about what it is like to be a young activist for landmine disarmament today, Maria points out that, despite many challenges, important advances have been taking place.
The participation of civil society in these spaces demonstrates significant progress; however, the current context, marked by funding cuts, directly impacts coalitions and their essential actions—such as demining and risk education—hindering a framework that is crucial for the protection of civilians worldwide. It is an equation with only one possible outcome: an increase in victims, the recurrence of forced displacement, and the weakening of efforts to maintain the safety of children, who are heavily affected by the indiscriminate nature of such weapons.
Contrary to any pessimism, new accessions to the Treaty—such as those of the Kingdom of Tonga and the Marshall Islands—as well as positive movements from countries like Micronesia and Lebanon, show that Humanitarian Disarmament remains a relevant and urgent agenda.
Maria concludes with a call to action:
“My message to other young people and activists is that our role has never been more necessary. In 2025, a year when the world had hoped to be free from anti-personnel mines, we are still far from that reality. We continue to face significant challenges in curbing their use, ensuring compliance with Treaty obligations, and, above all, protecting people from their impacts. In a scenario where around 90% of victims are civilians and half are children, there is no time or space for disengagement. On the contrary, this is an urgent call to strengthen commitment and collective action. Every voice matters, every initiative counts, and the role of young people has enormous transformative potential. It is essential that young people around the world engage, apply pressure, and encourage their countries—especially those that are not yet signatories—to join the Treaty. Likewise, it is crucial to mobilize resistance against setbacks, such as the withdrawal of States that were already committed.”
Redação: Kamilly Rosa
Revisão: Fernando Fiala
