A Guerra dos Doze Dias e o preço da Corrida Nuclear
- Fernando Fiala
- 14 de jul. de 2025
- 5 min de leitura

Conforme declarado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU em 12 de junho, o Irã não estaria cumprindo com o acordo estabelecido no âmbito do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), do qual é signatário desde 1970 como Estado não nuclear. A denúncia se refere à manutenção de locais com enriquecimento de urânio não declarados e à falta de cooperação com as atividades de monitoramento da AIEA relacionadas ao programa nuclear iraniano.
Além disso, o país teria violado o Protocolo Adicional ao TNP, assinado em 2003, que visa garantir maior transparência e acesso da agência às instalações nucleares. Segundo a AIEA, o Irã tem demonstrado pouca transparência em relação às obrigações previstas no tratado, sendo observadas ações de ocultação e explicações imprecisas sobre os avanços do país no setor nuclear. Em resposta, no mesmo dia, o Irã anunciou planos para construir uma nova usina de enriquecimento de urânio e aumentar a produção de material físsil enriquecido, contrariando a resolução proposta por Alemanha, Estados Unidos, França e Reino Unido, e que contou com votos contrários de Burkina Faso, China e Rússia.
Como um efeito dominó, no dia 13 do mesmo mês, Israel bombardeou as principais usinas e centros de pesquisa nucleares do Irã. A ação ocorreu após mais de 20 anos de ameaças e alertas do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, sobre o programa nuclear iraniano e sua intenção de interrompê-lo sob a justificativa de prevenir um possível “retorno” de ideologias nazistas e antissemitas, caso o país islâmico venha a desenvolver armamentos nucleares. O Irã, por sua vez, nega essas acusações, afirmando que seu programa nuclear tem fins exclusivamente pacíficos.
Com o início de um curto e tenso conflito no dia 13, Israel e Irã passaram a se contra-atacar de forma incisiva, atingindo tanto áreas militares quanto territórios civis densamente povoados, como foi visto nas cenas em Teerã e Tel Aviv. Com ofensivas diárias desde o início dos confrontos, no dia 19 a Casa Branca informou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia estipulado um prazo de duas semanas para decidir se interviria militarmente ou não, em uma tentativa de pressionar o Irã diante das propostas de um novo acordo nuclear entre os dois países. No entanto, contrariando o prazo definido por ele próprio, no dia 21 os Estados Unidos lançaram uma nova série de ataques ao programa nuclear iraniano, utilizando 14 mísseis do tipo Massive Ordnance Penetrator GBU-57, uma bomba de aproximadamente 14 toneladas, projetada para causar grandes danos a estruturas e artilharias subterrâneas. Foi a primeira vez que a GBU-57 foi usada em operação real.
Seguindo essa escalada, no dia 23 o Irã realizou uma retaliação simbólica: diferente do ataque surpresa e silencioso dos Estados Unidos, o país anunciou previamente sua ofensiva, permitindo a evacuação de militares norte-americanos antes de atacar uma base dos EUA no Catar. Embora o ataque tenha sido considerado “fraco” por Trump, foi repreendido pelo governo do Catar. Já os ataques estadunidenses foram condenados por Brasil, China e Rússia, sob a alegação de violação ao Direito Internacional.
Após o ataque iraniano à base norte-americana no Catar, ainda no mesmo dia, o presidente Donald Trump anunciou um cessar-fogo cercado de incertezas. A resposta de ambos os países foi lenta, e poucas horas após a declaração já surgiam suspeitas de violações do acordo por ambas as partes. Como saldo do conflito, Irã e Israel autoproclamaram-se “vencedores”, enquanto os Estados Unidos, que alegaram ter “obliterado” o programa nuclear iraniano, foram contrariados por autoridades iranianas dias depois, ao ser informado que não houve danos estruturais significativos às instalações nucleares, apenas um atraso no avanço do programa.

Entretanto, um dos saldos mais alarmantes deste conflito é o humanitário. Os ataques às instalações nucleares e centros de pesquisa no Irã, que resultaram na morte de dezenas de cientistas e militares iranianos, ultrapassaram os limites de alvos exclusivamente militares, alcançando também centros urbanos. Segundo o Ministério da Saúde iraniano, 606 pessoas perderam a vida e outras 5.332 ficaram feridas durante as ofensivas. Em Israel, 29 pessoas foram mortas e milhares ficaram feridas pelos ataques. Para além das inaceitáveis baixas civis em um curto período de tempo, destacam-se também os danos às infraestruturas e à vida comunitária: famílias enfrentam perdas irreparáveis, bairros inteiros estão destruídos, e o sentimento de desamparo se tornou parte da rotina. É imprescindível que, em qualquer conflito armado, a proteção da população civil e a preservação da dignidade humana estejam no centro das decisões políticas e militares. Tragédias como essa não podem se repetir.
![Iranianos feridos em um ataque israelense no Boulevard Keshavarz, no centro de Teerã. [Amir Kholousi/ISNA via AFP]](https://static.wixstatic.com/media/d4f605_5df48a51658942c28d2abfed4738745e~mv2.png/v1/fill/w_980,h_650,al_c,q_90,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/d4f605_5df48a51658942c28d2abfed4738745e~mv2.png)
Conflitos como o exposto contribuem ao explicitar a escalada armamentista iminente na atual conjuntura global e, no pior e mais devastador dos casos, de uma possível escalada nuclear. Sendo assim, aferidos os danos ocasionados durante tais conflitos sem mesmo que armas nucleares tenham sido utilizadas, faz-se indispensável o compromisso com acordos internacionais como o Tratado de Não-Proliferação e o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, dos quais Estados como Israel não participam nem dispõem de dados transparentes quanto à sua tecnologia no setor. O fato de que a motivação de tal conflito reside na suspeita de um desenvolvimento armamentista nuclear, suspeita essa que pôs em risco e em fim centenas de vidas civis, já comprova, por si só, como os riscos que as Armas Nucleares trazem à sociedade global não se restringem às perdas e danos incontornáveis pós e durante ataques, mas mostra como, em todos os seus estágios, tal desenvolvimento é contrário à garantia da dignidade da vida humana.
Referências
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REUTERS. Satellite images indicate severe damage at Fordow, but doubts remain. Reuters, 22 jun. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/satellite-images-indicate-severe-damage-fordow-doubts-remain-2025-06-22/.
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Redação: Fernando Fiala










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