Depois da Guerra: As Histórias de Aki Ra, Ahmed Ali e Yoko Moriwaki
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Na primeira edição do quadro “Depois da Guerra: Histórias de Quem Viveu”, trazemos as histórias de Aki Ra, que vivenciou os impactos das minas terrestres diretamente; Ahmed Ali, e como sua vida e família foram profundamente afetadas pelas munições cluster; e da pequena Yoko Moriwaki, uma menina de 13 anos que teve sua vida interrompida pelo lançamento de uma bomba atômica. Experiências que revelam como a guerra continua presente na vida dos sobreviventes mesmo após o fim dos conflitos armados e que reforçam a importância da proteção humanitária e do desarmamento para a preservação da dignidade humana.
Os impactos das Minas Terrestres: a história de Aki Ra
Aki Ra nasceu em meio a um dos regimes ditatoriais mais violentos da modernidade, o regime de Khmer Rouge, no Camboja. Aproximadamente aos 6 anos, seus pais faleceram e ele foi levado por militares para ser recrutado como criança-soldado. Crescendo para lutar e sobreviver, aos poucos ele foi sendo treinado para montar e plantar minas terrestres. Como criança, Aki Ra as enxergava como brinquedos poderosos e não entendia seus impactos negativos.

Esses armamentos permaneceram espalhados por todo o país, enterrados e silenciosos, prontos para explodir a qualquer momento. Após o fim da guerra, Aki Ra, com suas habilidades adquiridas com os treinamentos, passou a atuar como desminador voluntário, utilizando apenas uma faca e um pedaço de pau como ferramentas – além de muita coragem e determinação. Desta forma, ele colaborou na limpeza de vilas e campos sem grande apoio ou equipamentos modernos, um processo que devolveu a liberdade para a sociedade cambojana de realizar tarefas ordinárias, como plantar e brincar livremente, trazendo novas chances de reestruturação socioeconômica.
A partir disso, Aki Ra fundou a ONG “Cambodian Self Help Demining Organization” e desde então, junto à sua equipe, já limpou mais de 9,5 milhões de metros quadrados de solo contaminado. Posteriormente, ele criou o “Museu da Mina” no Camboja, espaço onde ele educa visitantes e apoia na reabilitação de crianças que perderam membros em explosões. Fazendo com que o museu seja mais que um local de memórias, mas, principalmente, de esperança.
Atualmente, o Camboja ainda sofre com a contaminação por minas terrestres em seu território, onde a atuação e histórias como as de Aki Ra continuam inspirando novas gerações, lembrando-nos que o Desarmamento Humanitário não se trata, apenas, do controle e proibição das armas, mas também devolver a humanidade e a dignidade que essas ameaçam.
As consequências indiscriminadas das Munições Cluster: a história de Ahmed
Ahmed Ali era um taxista de 45 anos que vivia com sua família em Blida, sul do Líbano, quando em julho de 2006, durante o conflito entre Israel e o Hezbollah, sua vida foi profundamente transformada por um ataque com munições cluster. Em meio aos constantes bombardeios, Ahmed e família buscaram proteção no porão de sua casa, um espaço que, dentro de uma área residencial urbana, deveria representar segurança diante da violência da guerra.
Entretanto, no dia 19 de julho, por volta das três horas da tarde, sua cidade foi atingida por munições cluster disparadas por artilharia israelense. Durante o ataque, submunições atravessaram a residência da família e alcançaram o porão onde todos estavam abrigados. Em questão de segundos, o local que havia sido escolhido para protegê-los transformou-se em um cenário de destruição.
A explosão deixou Ahmed gravemente ferido, resultando na perda de suas pernas. Além disso, Maryam Ibrahim, de 60 anos, que também estava no abrigo, morreu no momento do ataque. Cinco dos filhos de Ahmed ficaram feridos, incluindo sua filha Ola, que tinha apenas um ano de idade. Sua esposa, sua sogra e outros familiares também foram atingidos. Ao todo, doze pessoas ficaram feridas naquele único acidente, sendo sete delas crianças.
A tragédia vivida por Ahmed e sua família evidencia os impactos humanitários das munições cluster sobre a população civil. Diferentemente de armamentos direcionados a alvos específicos, essas armas dispersam dezenas – ou até centenas – de pequenas submunições por amplas áreas, atingindo civis de forma indiscriminada. Mesmo locais considerados seguros, como residências e abrigos familiares – como o porão de Ahmed – podem ser alcançados por seus efeitos devastadores.
Além dos danos imediatos, muitas submunições não explodem no momento do impacto, permanecendo espalhadas pelo solo durante anos. Dessa forma, continuam representando uma ameaça constante para comunidades, dificultando a reconstrução das regiões afetadas e colocando em risco a vida de populações civis muito tempo após o cessar-fogo.
Conheça os impactos das Munições Cluster sobre a infância na matéria "Herdeiros da Guerra: Os impactos das Munições Cluster nas Crianças"
As sequelas irreversíveis das Armas Nucleares: a história de Yoko
Yoko Moriwaki nasceu em junho de 1932, na cidade de Hiroshima, Japão. Filha de um professor de música, cresceu cercada pela arte e desenvolveu desde cedo uma paixão pela musicalidade. Como muitas crianças de sua idade, tinha sonhos, amizades e planos para o futuro, mesmo vivendo em um país marcado pelos desafios da Segunda Guerra Mundial.
Em abril de 1945, Yoko ingressou na escola que tanto desejava frequentar. No entanto, a rotina escolar havia sido profundamente alterada pelo contexto conflituoso. Além das aulas, as estudantes eram mobilizadas para atividades relacionadas ao esforço de guerra, como o cultivo de alimentos, a construção de abrigos antiaéreos e a demolição de edifícios para evitar a propagação de incêndios em caso de bombardeios.

Apesar das dificuldades impostas pela guerra, Yoko procurava preservar momentos de normalidade em sua vida cotidiana. Em seu diário, registrava acontecimentos simples do seu dia a dia e suas expectativas para o futuro. Seus escritos revelam que, por trás do contexto de guerra, existia uma menina comum, cheia de sonhos e esperanças.
No dia 5 de agosto de 1945, Yoko fez sua última anotação no diário: “A partir de amanhã, trabalharemos no local de demolição. Eu farei o meu melhor.” Na manhã seguinte, saiu de casa como em qualquer outro dia. Despediu-se de sua família, atravessou a cidade e seguiu para o ponto de encontro com suas colegas.
Pouco depois das oito horas da manhã, enquanto se preparavam para iniciar os trabalhos de demolição, um clarão iluminou o céu de Hiroshima. Às 8h15, a primeira bomba atômica utilizada em um conflito armado no mundo foi lançada sobre a cidade. Em segundos, uma combinação devastadora de explosão, calor extremo e radiação transformou Hiroshima em um cenário de devastação sem precedentes.

Yoko e suas colegas estavam a aproximadamente 700 metros do hipocentro da explosão, diretamente expostas aos efeitos da bomba. A maioria das estudantes que se encontrava na área morreu naquele momento, menos Yoko, que, gravemente ferida, foi levada para um posto de socorro próximo à cidade. Ali, aos 13 anos de idade, faleceu enquanto aguardava a chegada de sua mãe.
Sua morte representou uma entre as milhares de vidas perdidas naquele dia. Estima-se que aproximadamente 7.200 estudantes tenham morrido em decorrência do bombardeio de Hiroshima. No entanto, a história de Yoko nos recorda que os impactos das armas nucleares não podem ser compreendidos apenas por meio de números. Cada vítima possui uma história, uma família, sonhos e projetos que foram interrompidos de forma irreversível.
As histórias de Aki Ra, Ahmed Ali e Yoko Moriwaki ocorreram em contextos distintos, separados por décadas, continentes e tipos de armamentos. Ainda assim, todas revelam que os impactos da guerra ultrapassam os âmbitos militares e atingem diretamente a população civil. Seja por meio das minas terrestres que permanecem ativas por décadas, das munições cluster que atingem indiscriminadamente famílias inteiras ou das armas nucleares capazes de destruir vidas e cidades em segundos, os efeitos da violência armada continuam presentes muito depois do fim dos combates. Ao dar voz a essas trajetórias, o projeto “Depois da Guerra: Histórias de Quem Viveu” busca lembrar que por trás das estatísticas existem pessoas, famílias, sonhos e futuros silenciados. Essas histórias nos convidam a refletir sobre a importância do Desarmamento Humanitário na construção de uma paz duradoura e positiva.
Redação: Mayra Ghotme
Revisão: Fernando Fiala
09/06/2026 BRT
O conteúdo deste artigo é de responsabilidade de seus autores e não reflete necessariamente o posicionamento institucional da Dhesarme.
Referências
HUMANITY & INCLUSION (HI). Dedicating his life to mine clearance: the journey of Aki Ra, a former child soldier. Lyon: Humanity & Inclusion, 2023. Disponível em: https://www.hi.org/en/news/dedicating-his-life-to-mine-clearance-the-journey-of-aki-ra-a-former-child-soldier. Acesso em: 9 jun. 2026.
DOCHERTY, Bonnie. Flooding South Lebanon: Israel's use of cluster munitions in Lebanon in July and August 2006. Cambridge: Human Rights Clinic, Harvard Law School, 2008. Disponível em: https://humanrightsclinic.law.harvard.edu/wp-content/uploads/2023/03/2008-Docherty-Flooding-South-Lebanon.pdf. Acesso em: 9 jun. 2026.
HIROSHIMA PREFECTURE. Yoko's Diary. Hiroshima: Hiroshima Prefecture, [s.d.]. Disponível em: https://www.pref.hiroshima.lg.jp/uploaded/attachment/662812.pdf. Acesso em: 9 jun. 2026.




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